Além dos remédios: o novo papel das farmácias no cuidado com a saúde
Farmácias ampliam serviços de saúde, mas enfrentam desafios de integração.
A farmácia já não se limita à venda de medicamentos. Em alguns estabelecimentos, o atendimento inclui orientação farmacêutica, acompanhamento de pacientes e serviços clínicos. Mas como essa atuação pode contribuir para a segurança dos pacientes e se integrar ao acompanhamento médico?
No Promorar, na zona sul de Teresina, a preocupação de Maria Helena com a vizinha Dona Angélica, de 81 anos, levou a uma busca por orientação. Em julho, durante as férias da funcionária que trabalhava na casa da idosa, Maria Helena passou a acompanhá-la mais de perto. Foi nesse período que percebeu sinais de debilidade. “Eu comecei a perceber que ela estava muito debilitada. Ela queria ficar deitada, não conseguia permanecer muito tempo sentada”, relata.
A preocupação aumentou depois de um episódio ocorrido após o jantar. Segundo a vizinha, Dona Angélica quase desmaiou. “Eu consegui segurá-la e levei para uma cadeira”, conta. Durante o episódio, a idosa também urinou na roupa.
Diante do que observava, Maria Helena começou a questionar a quantidade de medicamentos prescritos. Após uma consulta com um geriatra, Dona Angélica havia começado a tomar quatro medicamentos para controlar a pressão arterial, além de outras medicações. “Eu comecei a olhar aquela receita e a perceber que era muita medicação para uma pessoa de 81 anos, que já tinha Alzheimer e que estava apresentando aqueles sintomas”, afirma.
Sem conhecimento técnico para avaliar a prescrição, Maria Helena procurou uma drogaria do próprio bairro. Inicialmente, queria saber se Dona Angélica poderia receber medicamentos por meio de um programa do governo. Durante a conversa com a farmacêutica Aldomária Araújo, contou o que vinha acontecendo com a idosa.
Ao analisar as receitas, Aldomária levantou questionamentos sobre a quantidade de medicamentos e a possível relação com os sintomas. Em vez de orientar a interrupção do tratamento, recomendou que a família procurasse um cardiologista para reavaliar a prescrição. “Aldomária não disse para a gente simplesmente parar os medicamentos. Ela levantou os questionamentos e orientou que procurássemos outro profissional para avaliar aquela situação”, diz Maria Helena.
O cardiologista reavaliou a prescrição e fez mudanças no tratamento, incluindo a retirada de três dos medicamentos usados para controlar a pressão arterial e a inclusão de outro, segundo Maria Helena.
Os números do setor
O caso de Dona Angélica mostra como a orientação farmacêutica pode ajudar a identificar situações que exigem uma nova avaliação médica. Os dados do setor ajudam a dimensionar a presença das farmácias no país e a expansão dos serviços de saúde oferecidos nesses estabelecimentos.
No Piauí, dados da Junta Comercial do Estado (Jucepi) apontam a existência de 5.183 empresas ativas nos segmentos de comércio varejista de produtos farmacêuticos abrangidos pela pesquisa. Elas estão distribuídas por 223 dos 224 municípios piauienses. Teresina concentra 1.522 empresas, o equivalente a 29,37% do total estadual.
Em âmbito nacional, dados da Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), que representa grandes redes do setor, indicam que suas associadas realizaram cerca de 10 milhões de serviços de saúde em 2025, distribuídos em 6,8 milhões de atendimentos.
Entre os serviços oferecidos estão a revisão de medicamentos, o acompanhamento de pacientes com doenças crônicas, a imunização e a realização de testes rápidos. As associadas registraram ainda cerca de 3,6 milhões de atendimentos entre janeiro e março de 2026.
Para o CEO da Abrafarma, Sérgio Mena Barreto, a expansão desses serviços está relacionada à ampliação da atuação clínica dos farmacêuticos e à presença das farmácias em diferentes regiões do país.
“Essa transformação é resultado de uma combinação de fatores. De um lado, houve uma mudança na própria profissão farmacêutica, que passou a valorizar cada vez mais as atribuições clínicas e o acompanhamento do paciente. De outro, as farmácias perceberam que sua capilaridade, conveniência e proximidade com a população poderiam ser utilizadas para ampliar o acesso à saúde”, afirma.
A pandemia de Covid-19 acelerou esse movimento, ao ampliar a procura por testes, vacinação e orientação nas farmácias. O processo também foi acompanhado por mudanças na regulamentação do setor, entre elas a Lei Federal nº 13.021/2014, que reconheceu as farmácias como estabelecimentos de saúde.
Na farmácia do bairro, o cuidado vai além da venda
À frente de uma drogaria no bairro Promorar, em Teresina, a farmacêutica Aldomária Araújo atende pacientes com dúvidas sobre medicamentos, acompanha a pressão arterial e orienta a busca por atendimento especializado quando necessário. O Piauí conta com mais de 100 salas clínicas em farmácias, segundo a Abrafarma.
Na drogaria de Aldomária, são realizados, em média, de quatro a seis atendimentos rápidos por dia, além do acompanhamento de pacientes ao longo do tratamento. No controle da pressão arterial, por exemplo, o paciente pode registrar as medições feitas na farmácia e levar os resultados ao médico.
“Às vezes, ele pode orientar a pessoa a levar um caderninho e ir todos os dias à farmácia para aferir a pressão e anotar os resultados. Depois de 15 dias, o paciente leva esse registro ao médico, que poderá avaliar as informações”, explica.
A avaliação de receitas e o encaminhamento a outros profissionais também fazem parte da rotina, especialmente quando há situações que exigem uma nova avaliação. “Eu avalio a prescrição e, quando encontramos algo que não está compatível com a situação clínica daquele paciente, faço um encaminhamento com as informações necessárias”, afirma.
A atuação farmacêutica, porém, tem limites. O profissional pode orientar sobre o uso de medicamentos e identificar situações que exigem avaliação especializada, mas não substitui o diagnóstico médico nem o acompanhamento clínico.
A farmacêutica relata o caso de uma paciente com diabetes que utilizava três medicamentos e que, após um período de acompanhamento farmacêutico, consultas médicas e avaliação de exames laboratoriais, deixou de usar os remédios. Ela ressalta que as mudanças no tratamento não foram feitas por iniciativa própria. “Nunca retirei nenhum medicamento. Foi o acompanhamento farmacoterapêutico que contribuiu para esse resultado”, afirma.
Segundo ela, o acompanhamento incluiu orientações sobre alimentação, revisão dos horários dos medicamentos e monitoramento da glicemia. As mudanças no tratamento ocorreram após consultas médicas e avaliações de exames laboratoriais.
Embora acompanhe pacientes e encaminhe casos para avaliação especializada, Aldomária afirma que ainda encontra dificuldades para manter contato direto e regular com os médicos. Para ela, ampliar essa articulação exigiria mais tempo dedicado à atividade. “Nós não temos esse contato direto com os médicos. Inclusive, é um trabalho que procuro fazer um dia, mas, para isso, preciso ter mais tempo: a visitação médica”, relata.
Além da articulação com outros profissionais, os custos também representam um obstáculo para a manutenção dos serviços. À frente de uma farmácia independente, Aldomária relata dificuldades para competir com grandes redes, que, segundo sua avaliação, têm maior poder de negociação com fornecedores. “Os custos são elevadíssimos. E a concorrência é muito desleal”, afirma.
Mesmo diante dessas dificuldades, a farmacêutica defende que o atendimento não se limite ao preço dos medicamentos. “A farmácia não é só para atender pelo preço. Eu não estou aqui apenas para vender. Estou aqui para orientar e fazer uma venda consciente, uma venda realmente necessária”, afirma.
Registrar os atendimentos é desafio para o setor
Além do atendimento direto aos pacientes, a expansão dos serviços farmacêuticos traz outro desafio: registrar de forma padronizada o que é realizado nas farmácias. Esses dados podem ajudar a dimensionar a atuação dos profissionais e acompanhar os serviços prestados.
Segundo Jeorgio Leão Araújo, conselheiro federal suplente de Farmácia pelo Piauí, o país ainda não conta com uma padronização nacional para o registro dos serviços farmacêuticos. “Para comprovar os serviços prestados, é necessário registrá-los e coletar esses dados”, afirma.
Para enfrentar essa dificuldade, o Conselho Federal de Farmácia (CFF) desenvolve um sistema público e gratuito para registrar os atendimentos. A ferramenta também pretende oferecer uma alternativa aos programas privados, alguns dos quais, segundo Georgio, cobram taxas de adesão e mensalidades.
A proposta foi aprovada por unanimidade pelo plenário do CFF, mas o sistema ainda está em desenvolvimento. Segundo Georgio, a próxima etapa é testar uma versão inicial em um projeto-piloto antes de disponibilizar o sistema nacionalmente.
A ferramenta também deverá permitir a elaboração de planos de cuidado individualizados, reunindo informações sobre o paciente para orientar condutas adequadas às suas necessidades. “O sistema será um recurso para auxiliar esse trabalho, mas não substituirá o profissional. Seu uso dependerá de um farmacêutico devidamente habilitado”, afirma.
A expectativa do CFF é que os registros ajudem a dimensionar os serviços farmacêuticos realizados no país e forneçam informações para subsidiar decisões do conselho e a formulação de políticas públicas de saúde. Esse potencial, porém, dependerá da implantação da ferramenta e da análise dos dados coletados.
Regras e integração desafiam expansão dos serviços
Além da padronização dos registros, a expansão dos serviços farmacêuticos depende de regras claras e de uma articulação maior entre os profissionais de saúde. Para Sérgio Mena Barreto, CEO da Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), a regulamentação precisa acompanhar as mudanças do setor sem comprometer a segurança dos pacientes.
“O desafio agora é fazer com que a regulamentação acompanhe a velocidade da inovação. Precisamos de regras claras, nacionais e proporcionais ao risco de cada serviço, evitando tanto a ausência de controle quanto exigências burocráticas que inviabilizem a oferta de serviços seguros”, afirma.
O executivo também defende regras mais uniformes entre estados e municípios. Segundo ele, diferenças na interpretação das normas podem dificultar o planejamento e os investimentos das redes de farmácias.
Para Mena Barreto, a tecnologia também pode ampliar as possibilidades de acompanhamento dos pacientes. Prontuários digitais, ferramentas de acompanhamento remoto e integração de dados são recursos que, segundo ele, podem ajudar a reunir informações ao longo do tratamento. O executivo ressalta, porém, que essas ferramentas devem apoiar o trabalho dos profissionais, sem substituir a avaliação clínica.
“É importante, porém, estabelecer uma premissa: tecnologia não substitui o profissional. Ela deve ampliar sua capacidade de cuidar, melhorar a experiência do paciente e tornar o acompanhamento mais preciso”, afirma.
Comunicação direta pode ajudar a evitar falhas no tratamento
A dificuldade de manter contato regular com médicos, relatada por Aldomária, também é apontada pelo médico clínico e nefrologista Mário Nicolau como um desafio para a segurança dos pacientes. Ele destaca que a análise das receitas e dos medicamentos em uso pode ajudar a identificar possíveis interações medicamentosas e duplicidades no tratamento.
“Por isso, costumo orientar: quando for à farmácia comprar a medicação, leve a receita que tem em casa e leve todos os remédios. O farmacêutico poderá analisar se existe alguma interação medicamentosa ou duplicidade de tratamento”, afirma.
O médico cita como exemplo a combinação de anticoagulantes com anti-inflamatórios, que pode aumentar o risco de sangramentos gastrointestinais. Ele também alerta para o uso frequente de anti-inflamatórios sem acompanhamento profissional, que pode prejudicar a função dos rins.
Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) dão dimensão ao problema. Entre dezembro de 2018 e agosto de 2026, o órgão recebeu 57.911 notificações de erros de medicação. O número representa 16,2% de todas as notificações registradas no período. Entre os erros relatados, os mais frequentes foram os de prescrição, que corresponderam a 18,7% dos registros, seguidos pela omissão de dose (13,5%) e pela posologia inadequada (9,1%).
Além dos riscos relacionados aos medicamentos, a falta de comunicação direta entre médicos e farmacêuticos pode dificultar o esclarecimento de dúvidas sobre o tratamento. Sem esse contato, o paciente acaba responsável por transmitir informações entre os profissionais, com possibilidade de falhas de entendimento.
“Muitas vezes, o paciente acaba sendo utilizado como intermediário para transmitir as informações. O médico passa uma orientação ao paciente, ele chega à farmácia, o farmacêutico transmite outra informação e, depois, o paciente retorna ao médico com o que entendeu. Esse processo funciona como um telefone sem fio e pode provocar falhas de comunicação”, afirma.
Para reduzir esse risco, Nicolau defende canais diretos de comunicação entre farmácias, clínicas e consultórios, por telefone, e-mail ou mensagens. A proposta é facilitar o esclarecimento de dúvidas sobre prescrições e a troca de informações relevantes para o tratamento.
O cuidado que mudou a rotina
Segundo Maria Helena, o apoio recebido na farmácia e o encaminhamento ao cardiologista foram importantes para que Dona Angélica passasse por uma nova avaliação médica.
Antes das mudanças no tratamento, conta Maria Helena, Dona Angélica quase só se levantava da cama para se sentar na cadeira de balanço. Após a reavaliação médica, segundo a vizinha, a idosa voltou a realizar atividades domésticas, conversar e sorrir. Maria Helena também relata que as dores pelo corpo que Dona Angélica costumava sentir deixaram de incomodá-la.
“Hoje ela é uma nova pessoa. Está mais feliz, mais alegre. E eu estou mais feliz ainda por poder contar com todo o apoio e as orientações de uma farmácia. Nós não temos muito conhecimento sobre essas questões, mas, com a ajuda desses profissionais e os encaminhamentos, seguimos mais confiantes e seguros”, afirma Maria Helena.
